Lesões ligamentares não tratadas no tornozelo podem levar a instabilidade, dor persistente e complicações articulares ao longo do tempo
As entorses de tornozelo estão entre as lesões ortopédicas mais comuns, podendo ocorrer em atividades esportivas, no dia a dia ou até mesmo em situações simples, como caminhar em terrenos irregulares. Apesar de muitas vezes serem consideradas lesões leves, nem todas as entorses evoluem de forma benigna — especialmente quando não recebem o tratamento adequado.
Quando negligenciada, a entorse pode comprometer a cicatrização dos ligamentos e alterar a estabilidade do tornozelo. Com o tempo, isso pode gerar uma cadeia de consequências que vão desde dor recorrente até lesões articulares mais complexas. Entender os riscos das entorses de tornozelo não tratadas é fundamental para evitar complicações e preservar a função da articulação.
O que pode causar uma entorse de tornozelo?
A entorse de tornozelo ocorre, na maioria das vezes, devido a um movimento de torção que ultrapassa os limites normais da articulação, levando ao estiramento ou ruptura dos ligamentos. Esse tipo de lesão pode acontecer em diferentes contextos, sendo bastante comum em atividades que envolvem mudanças rápidas de direção, como esportes.
Caminhar em terrenos irregulares, pisar em falso, utilizar calçados inadequados — especialmente aqueles com pouca estabilidade — e até alterações pré-existentes no tornozelo, que comprometam sua estabilidade, aumentam o risco de lesão. Esses elementos mostram que a entorse não está restrita ao ambiente esportivo e pode ocorrer em diversas situações.
O que acontece em entorses de tornozelo não tratadas?
Quando uma entorse de tornozelo não é tratada de forma adequada, especialmente nos casos em que há lesão ligamentar significativa, o processo de cicatrização e a recuperação funcional podem ocorrer de maneira inadequada. Isso compromete a função dos ligamentos, que são responsáveis por estabilizar a articulação.
Como consequência da entorse de tornozelo não tratada, a articulação pode perder estabilidade, gerando uma série de alterações no organismo. Essas alterações não apenas mantêm o desconforto, mas também aumentam o risco de novas lesões e de evolução para quadros mais complexos ao longo do tempo.
Cicatrização “frouxa”
Um dos principais problemas das entorse de tornozelo não tratada é a cicatrização inadequada dos ligamentos. Sem o tratamento e a reabilitação apropriados, essas estruturas podem cicatrizar de forma “frouxa”, ou seja, sem recuperar sua tensão e função originais.
Essa condição compromete diretamente a estabilidade do tornozelo, tornando a articulação mais suscetível a movimentos anormais e novas torções, mesmo em situações cotidianas.
Impacto anterolateral de partes moles
Nos casos de entorse de tornozelo não tratada, pode ocorrer cicatrização inadequada das estruturas ligamentares laterais, com formação de tecido fibroso na região anterolateral da articulação. Esse processo pode levar ao chamado impacto anterolateral de partes moles, caracterizado por atrito mecânico entre esses tecidos e as estruturas articulares durante o movimento.
Clinicamente, manifesta-se por dor localizada na região anterolateral do tornozelo, sensação de bloqueio e limitação funcional, sobretudo em movimentos de dorsiflexão ou mudanças rápidas de direção. Trata-se de uma causa frequente de dor persistente após entorses, muitas vezes subdiagnosticada, e que deve ser considerada em pacientes com evolução insatisfatória.
Alto risco de novas lesões
A combinação entre instabilidade ligamentar e sobrecarga muscular relacionadas à entorse de tornozelo não tratada aumenta significativamente o risco de novas entorses. Isso faz com que o paciente entre em um ciclo de lesões de repetição, em que cada novo episódio pode agravar ainda mais o quadro.
Esse padrão recorrente não apenas dificulta a recuperação completa, mas também aumenta o risco de danos progressivos às estruturas do tornozelo.
Como saber se a entorse no tornozelo foi grave?
A avaliação da gravidade de uma entorse deve ser feita por um médico ortopedista especialista em pé e tornozelo. No entanto, alguns sinais clínicos podem indicar que a lesão foi mais significativa e merece atenção imediata.
Entre os principais sinais de alerta estão o inchaço importante — especialmente quando envolve todo o tornozelo —, a dificuldade ou incapacidade de apoiar o pé no chão e a persistência de dor e edema por vários dias, mesmo após repouso. Esses sintomas sugerem a possibilidade de lesões ligamentares mais graves ou outras estruturas comprometidas, exigindo avaliação especializada.
Riscos e sequelas das entorses de tornozelo não tratadas
As entorses de tornozelo não tratadas podem evoluir para complicações que afetam não apenas os ligamentos, mas também as estruturas articulares e ósseas. Essas sequelas podem surgir no médio e longo prazo, especialmente em casos de instabilidade persistente.
Instabilidade crônica do tornozelo
A instabilidade crônica do tornozelo é uma das principais consequências das entorses não tratadas. Nessa condição, o tornozelo permanece “frouxo”, com dificuldade de manter sua estabilidade durante atividades simples.
Esse quadro aumenta o risco de novas entorses e pode gerar insegurança ao caminhar, impactando diretamente a qualidade de vida do paciente.
Artrose precoce
A instabilidade crônica, ao longo do tempo, pode levar ao desgaste da cartilagem da articulação do tornozelo. Esse processo resulta em artrose precoce, caracterizada por dor, rigidez e limitação de movimento.
Essa é uma complicação importante, pois envolve uma condição degenerativa que pode evoluir progressivamente se não tratada adequadamente.
Lesão osteocondral
A própria entorse pode causar lesões na cartilagem e no osso subjacente da articulação, conhecidas como lesões osteocondrais.
Essas lesões podem gerar dor persistente, sensação de travamento e limitação funcional, sendo muitas vezes subdiagnosticadas quando a entorse inicial não é devidamente avaliada.
Impacto anterior e pinçamentos
Em casos de instabilidade prolongada, podem surgir osteófitos (pequenos crescimentos ósseos ao redor da articulação) que levam ao chamado impacto anterior do tornozelo.
Esse quadro provoca dor, especialmente durante movimentos, e pode limitar a mobilidade da articulação, prejudicando atividades do dia a dia e práticas esportivas.
Sinais de alerta para procurar um médico ortopedista
Sempre que houver dor, inchaço ou limitação após uma entorse de tornozelo, é recomendada a avaliação por um médico ortopedista. Mesmo em casos aparentemente leves, a análise especializada é importante para descartar lesões mais significativas.
A avaliação precoce permite identificar a gravidade da lesão, indicar o tratamento adequado e reduzir o risco de complicações, especialmente as relacionadas a entorse de tornozelo não tratada. Ignorar os sintomas ou subestimar a lesão pode favorecer a evolução para quadros crônicos.
O que fazer para prevenir uma torção de tornozelo?
A prevenção das entorses de tornozelo envolve cuidados simples, mas que fazem diferença no dia a dia e na prática de atividades físicas. Um dos principais pontos é manter atenção ao caminhar, especialmente em superfícies irregulares ou com risco de instabilidade.
O uso de calçados adequados também é fundamental, principalmente evitando modelos que aumentem o risco de torção, como aqueles com pouca estabilidade ou salto elevado. Além disso, para pessoas com histórico de entorses, o fortalecimento da musculatura ao redor do tornozelo é essencial, pois melhora a estabilidade e reduz o risco de novas lesões.
Essas medidas, associadas à orientação médica quando necessário, ajudam a proteger a articulação e evitar complicações relacionadas a entorse de tornozelo não tratada.
Fontes:
Honda Saito, Guilherme. Functional outcomes and rates of return to sport activities in a non-athlete population after the open Brostrom-Gould repair: a seven-year follow-up. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2024 May;34(4):1957-1962.
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